A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa Selic de 14,25% para 14,00% ao ano foi recebida de forma positiva por representantes da indústria e dos trabalhadores, mas acompanhada de críticas ao nível ainda elevado dos juros. Na avaliação das entidades, o corte de 0,25 ponto percentual é insuficiente para alterar de maneira significativa as condições de crédito e estimular investimentos e consumo.

A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) avaliou que a continuidade do ciclo de redução da taxa básica representa um sinal favorável para a atividade econômica, mas ressaltou que o patamar atual ainda mantém o crédito caro e limita a expansão da indústria.

Segundo a entidade, o elevado custo do capital adia investimentos, dificulta a modernização das empresas e reduz a competitividade da indústria brasileira. A federação destaca que esse cenário já se reflete no desempenho do setor de transformação, que cresceu apenas 0,4% no primeiro semestre de 2026, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A Firjan também aponta que o ambiente internacional continua desafiador, marcado por tensões geopolíticas, volatilidade nos preços das commodities e incertezas no comércio global. Para a entidade, uma redução mais consistente dos juros dependerá do fortalecimento da credibilidade fiscal, da redução dos prêmios de risco e do avanço de medidas voltadas à diminuição do chamado Custo Brasil.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também considerou correta a decisão de reduzir a Selic, mas afirmou que o nível atual dos juros continua excessivamente elevado. Na avaliação da entidade, o custo do crédito segue pressionando empresas e famílias, comprometendo investimentos, consumo e geração de empregos.

A CNI lembra que a taxa básica permanece em nível restritivo há 55 meses e afirma que a Selic está cerca de 3,6 pontos percentuais acima da taxa estimada pela chamada Regra de Taylor, indicador utilizado para estimar um nível de juros compatível com o controle da inflação e o crescimento econômico.

A entidade também destaca que a inflação tem mostrado desaceleração nos últimos meses. As expectativas para 2027 e 2028 permanecem dentro da banda de tolerância da meta, enquanto indicadores como o IPCA-15 e os núcleos de inflação apontam redução gradual das pressões inflacionárias.

Para os industriais, os juros elevados aumentam a necessidade de capital de giro, encarecem financiamentos, reduzem margens de lucro e dificultam novos investimentos. Levantamento da CNI mostra que mais da metade das empresas espera aumento da necessidade de recursos para financiar operações nos próximos meses, enquanto 58% projetam redução das margens líquidas em razão do elevado custo financeiro.

A entidade também avalia que o diferencial entre os juros brasileiros e os praticados em economias desenvolvidas tem contribuído para a valorização do real frente ao dólar, movimento que ajuda a conter parte das pressões inflacionárias, mas não compensa os efeitos negativos sobre a atividade produtiva.

Na mesma linha, a Força Sindical classificou a redução promovida pelo Copom como um "ajuste econômico" de impacto limitado. Para a central sindical, a manutenção da Selic em 14% continua restringindo o crescimento da economia, encarecendo o crédito para famílias e empresas e reduzindo o potencial de geração de empregos.

A entidade afirma que juros elevados concentram renda no sistema financeiro, reduzem a capacidade de consumo da população e enfraquecem a confiança do setor produtivo. Segundo a Força Sindical, uma redução mais intensa da taxa básica contribuiria para estimular investimentos, ampliar a atividade econômica e fortalecer o mercado de trabalho.