O poeta Carlos Drummond de Andrade, em crônica de 1959, no Correio da Manhã, expressa todo o seu amor e pesar por Inácio, seu gato de estimação desaparecido de uma hora para outra. Depois de se desculpar com o leitor por conta de um assunto aparentemente banal, o poeta mineiro encerra melancolicamente sua crônica, sem reencontrar Inácio.

Os felinos, por sinal, são criaturas que sempre seduziram escritores de renome: Hemingway, Poe, Mark Twain, Baudelaire, Cortázar; e, no Brasil, pelo menos Guimarães Rosa, Mario Quintana, Ferreira Gullar, Vinícius de Moraes e Drummond tornaram também famosos, de uma forma ou outra, seus bichanos de estimação.

Os gatos, porém, e evidentemente, não conquistam somente o coração das celebridades. Nós, os mortais comuns, com rara exceção, somos da mesma forma cativados pela doçura, amabilidade e carisma dos bichanos, companheiros do dia a dia nas mais diversas situações.
Assim sendo, deve ser contado o “papai” ou “mamãe” de gato que não tenha sofrido um duro golpe quando sua cria adotiva, de repente, desaparece de casa. Esse mau costume, aliás, é característico da personalidade dos gatos. Eu mesmo já passei por esse dissabor e desconsolo quando meu Bel, e depois meu Ernâni, sem dizer adeus, sumiram para sempre.

O mesmo fez Belinha, recentemente, uma gatinha adorável, ao fugir da casa da minha irmã. Por um descuido repentino, Belinha ganhou a rua no começo da noite. E haja lamentações, e preces, e promessas ao santo, e postagens na internet, implorando a volta de Belinha.

Dois, três, cinco dias, uma semana, e nada... Em circunstâncias assim, nossa imaginação costuma trabalhar a todo vapor, fantasiando os mais prováveis e improváveis rumos que o bichano possa ter tomado. Atraente e afável, Belinha deve ter sido logo adotada, pensou-se. E este era o pensamento mais consolador. Porque, por outro lado, também se ventilava a triste ideia de que ela podia estar em maus lençóis.

Todavia, se o seu Inácio jamais voltou, caro Drummond, atente agora para este milagre. Era início de noite, mesmo horário em que Belinha desaparecera, há exatos 13 dias. Pois eis que, quando restava apenas um tênue fio de esperança de reencontra-la, uma notícia alvissareira. Belinha fora vista folgadamente deitada na cadeira de um comércio de esquina, como uma boêmia notívaga e despreocupada, no centro da cidade.

Um amigo a reconheceu e, imediatamente, comunicou à minha irmã, que sem querer acreditar, foi resgata-la, ainda com os pontos da castração recente. Ao ouvir a voz de sua “mamãe”, Belinha correu para ela, lépida e fagueira. Toda a alegria e gratidão foram manifestadas nas redes sociais, que ajudaram sobremaneira a reencontrar Belinha, sã e salva, depois de treze longos dias de sua hégira exclusivamente urbana.