Não é só um baião: é um hino. Não é só um sucesso: é um sucesso eterno. Tem 70 anos e continua sendo ouvida por aí afora, ecoando nas emissoras de rádio e também nas mídias digitais, pois até quem veio ao mundo na era da informática, já deve ter ouvido algum trecho da música “A Feira de Caruaru”.

O autor, caruaruense Onildo Almeida, tem 98 anos. E foi ele próprio quem, em 1956, gravou originalmente a sua famosa composição em disco de vinil de 78 rotações.

A gravação ganhou imediatamente a simpatia do público e encantou, especialmente, os ouvidos de sua majestade o Rei do Baião, que em visita à Rádio Difusora de Caruaru, onde Onildo Almeida era operador de áudio, teria dito uma frase legendária da música nordestina: “Como é que você tem um negócio desse e não me amostra?”.

O destino estava traçado. A música foi parar então nas mãos melhor indicadas. Em 1957, Luiz Gonzaga gravou “A Feira de Caruaru”, vendendo 100 mil cópias em apenas dois meses e rendendo o primeiro disco de ouro da carreira de Gonzagão.

Em maio deste ano, o famoso baião de Onildo Almeida completou sete décadas de seu lançamento. Melodia e letra de uma originalidade rara, a composição revelou a todo o país a multiplicidade da maior feira popular do Nordeste, na cidade de Caruaru, agreste pernambucano. E Onildo Almeida, beirando os cem anos de idade, continua de pé, firme e forte, defendendo sua criação antológica que representa, em sua mais completa essência, nossa cultura nordestina. .

Lembro-me, menino, de ouvi-la troando no velho e bom rádio Semp da sala. Meu pai, fã ardoroso de Luiz Gonzaga, explicava-me trechos da letra, termos e expressões próprios do nordestinês genuíno: “Armoço feito nas torda”, “sorvete de raspa que faz jaú”, “mubia de tamborete”, “fruta de parma e mandacaru”...

Quanta riqueza vocabular colhida na fonte! Quanta grandeza e singeleza a um só tempo, em quatro oitavas e estribilho caprichosamente metrificados, com rimas sempre em “u”, evocando e dando especial relevo ao nome da feira e da cidade inspiradoras, Caruaru! E tudo isso embelezado por uma melodia envolvente, gostosa de se ouvir, cantar e dançar. A letra de Onildo Almeida é um autêntico mosaico retratando em música aspectos os mais diversos e originais daquele gigantesco empório surgido no final do século dezoito.

Septuagenário e sem perder o sucesso, o baião “A Feira de Caruaru”, com todo o seu rico achado de detalhes e fortuna crítica, é um recado em alto e bom som a uma grande parcela dos fazedores da barafunda de decibéis hodiernos, com o vão pretexto de alegarem fazer música, em particular, a música regional nordestina.